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Por Chico Alves, UOL

A delicada situação da segurança pública do Rio de Janeiro, onde um número cada vez maior de moradores vive sob domínio de criminosos armados, não é acompanhada apenas pelas autoridades policiais fluminenses e pela Polícia Federal. As Forças Armadas também monitoram o avanço de milicianos, que se associam a traficantes em diversos bairros da capital.

A coluna teve acesso ao conteúdo de informe produzido pelo Centro de Inteligência do Exército (CIE) que mostra como as quadrilhas prejudicam e até impedem o acesso de uma parte dos cariocas a serviços como telefonia, internet, TV a cabo, gás encanado e energia elétrica.

O documento circulou em outubro e mostra que o domínio territorial desses criminosos não se restringe a favelas, pois começa a se espalhar para bairros de classe média das zonas norte e oeste da cidade.

Depois de várias atuações do Exército contra a criminalidade no Rio, o CIE passou a acompanhar mais de perto a situação da capital. O trabalho se intensificou com a intervenção federal ocorrida na secretaria estadual de Segurança Pública, em 2018. Mesmo após o fim da missão, os boletins continuaram a ser produzidos.

O informe a que a coluna teve acesso registra que “a milícia vem expandindo seus domínios no Rio em virtude das ‘parcerias’ com o tráfico”. Para ilustrar a gravidade da situação, cita os problemas de distribuição de serviços nesses locais, muitas vezes inviabilizados pelos criminosos.

Segundo o levantamento de inteligência do CIE, “a OI teve toda a sua estrutura destruída por bombas e tiros nos bairros de Cavalcante e Engenheiro Leal”, situados na zona Norte.

“Com isso os seus serviços foram cancelados, atingindo 25 mil pessoas, os criminosos estão obrigando todos os moradores a migrarem para uma internet do tráfico, com velocidades inferiores e péssimos serviços”, diz o texto.

“A Oi também já enfrenta problemas em bairros como Santa Cruz, Cascadura, Piedade, Quintino, Madureira, Pilares, Cachambi, Jacaré, partes do Méier e Lins, com sabotagens, ataques e até mesmo proibições de novos cabeamentos”.

O documento revela que “fontes próximas ouvidas” disseram que a OI deve deixar de atender 1,5 milhão de pessoas por ordens e ataques da milícia e tráfico.

Furtos e vandalismo na rede

Procurada pela coluna, a assessoria de comunicação da empresa informou que “diante de problemas relacionados à segurança pública, tem enfrentado de forma recorrente dificuldades para manter o funcionamento dos seus serviços de telefonia e internet em algumas regiões do Estado do Rio de Janeiro”.

Segundo a Oi, “em virtude da ação de criminosos, a empresa vem sendo constantemente vítima de furtos e vandalismo na sua infraestrutura de telecomunicações e equipes técnicas têm sido impedidas de acessar equipamentos e operar a rede, o que impacta na manutenção e disponibilidade dos serviços de telecomunicações, tão importantes para garantir a continuidade dos serviços prestados à sociedade”.

O serviço de inteligência do Exército cita também a Vivo Fibra, que está às voltas com sérios problemas em sua expansão, com grande número de ataques a sua rede de fibra ótica na cidade do Rio.

“Bairros como Vila Isabel, Engenho Novo, Riachuelo, Engenho de Dentro, já são considerados territórios perdidos, em virtude do grande número de (atos de) vandalismo, tudo a mando do tráfico e da milícia”, diz o informe militar.

Também a Tim Live só consegue operar em bairros nobres, pois “vem sofrendo ataques por parte de milícia e tráfico e já perdeu 15% do território, onde possui cabeamentos de fibra”.

Procurada, a Vivo preferiu não comentar. A Tim não respondeu ao e-mail enviado com perguntas sobre o tema.

Sobre a operadora de TV a cabo NET (atualmente Claro), o informe diz que a “cancelou novos investimentos no Rio e mira agora em outros estados”, pois “já perdeu ou foi expulsa de 20% do território onde possui cabeamentos em bairros do Rio”. Até o fechamento desta matéria, a empresa não havia respondido aos questionamentos enviados por e-mail.

Sessões de tortura e espancamento

A associação de milícia e tráfico também prejudica o acesso de parte dos cariocas a serviços como gás encanado e energia elétrica.

De acordo com o documento do CIE, a Naturgy, distribuidora de gás, “vem enfrentando problemas em virtude de pedágios que o tráfico ou milícias cobram para que reparos sejam feitos em sua rede de distribuição”. O problema já afeta 2 milhões de pessoas. “Bairros inteiros estão sem gás encanado, para obrigar os moradores a comprarem botijões de gás da Milícia ou tráfico por até 120 reais”, destaca o texto.

À coluna, a Naturgy informou que “atua em todo o estado contando com a colaboração das forças de segurança pública”. Explicou que “para a realização do trabalho, em todas as localidades, a segurança de seus funcionários e da população é a prioridade da empresa”.

Já a companhia responsável pela distribuição da energia elétrica no município, a Light, perdeu 35% de suas redes para a milícia, diz o informe do Exército.

“Em bairros como Recreio, Santa Cruz, Campo Grande (Sub-bairros), Cascadura, Madureira, Cavalcanti, Engenheiro Leal, Tomás Coelho, Pilares e mais 35 bairros (em sua totalidades ou parcialmente), a Light teve sua estrutura toda tomada, as cobranças são feitas por empresas ligadas a milícia, em dinheiro vivo, e quem não paga sofre sessões de torturas e espancamentos”. Essa forma de cobrança não é detalhada no documento.

Ataques a torres de telefonia

Questionada, a Light comentou que “tem, em 230 áreas de risco mapeadas, aproximadamente 676 mil clientes (15,6% do total de clientes da empresa)” e que “nessas áreas, no período entre outubro de 2019 e setembro de 2020, o percentual de energia furtada chegou a 72% do total distribuído”.

Além disso, a Light chama atenção para os “gatos”, que causam interrupções no fornecimento porque sobrecarregam a rede elétrica por causa da sobrecarga.

O Centro de Inteligência do Exército cita genericamente que torres de telefonia móvel estão sofrendo ataques. “O motivo seria um alto pedágio de R$ 30 mil por semana, que cada operadora está tendo que pagar a traficantes ou milicianos, em municípios da Baixada e bairros do subúrbio carioca”.

Por fim, o texto comenta que cidades do interior de São Paulo estão registrando um boom no mercado imobiliário, por causa dos cariocas que fogem “da guerra do Rio” para viver tranquilamente em cidades como São José dos Campos, Taubaté ou Tremembé.

O que diz a Secretaria de Polícia Civil

Sobre grave situação descrita pela inteligência do Exército, a Secretaria de Polícia Civil informou à coluna que, após quase 10 anos sem uma política de estado de combate às milícias, criou, em outubro do ano passado, uma força-tarefa contra esses criminosos.

Desde então, foram realizadas mais de 60 operações, resultando em apreensões de 800 mil unidades de TV Box, aparelhos vendidos pela milícia para acesso clandestino a canais pagos, mediante pagamento de mensalidade. O valor do equipamento é estimado em R$ 600 milhões.

“Além disso, mais de 20 provedores de internet e TV a cabo clandestinos foram interditados, estabelecimentos comerciais, fábricas, farmácias e outros negócios da milícia foram fechados, gerando prejuízo que chega a aproximadamente R$ 1,1 bilhão aos bandidos. Cerca de 600 milicianos foram presos desde a criação da Força-Tarefa”, enumera a secretaria.

Fonte: UOL

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