Uma comparação entre a pandemia de Gripe Espanhola e a pandemia de Coronavírus

Em entrevista do hotsite Coronacrise, do IFCH, a graduada em História pela UFRGS e mestre em História pela PUCRS Gabrielle Werenicz Alves realiza a comparação entre a chamada Gripe Espanhola, dos fins da década de 1910, com a pandemia atual do novo coronavírus. Confira

Quais as semelhanças entre a Gripe Espanhola e o Coronavírus?

Existem inúmeras semelhanças entre a pandemia de Gripe ocorrida no início do século XX e a situação que estamos enfrentando atualmente, apesar dos 100 anos que as separam. Mas para entendermos essas similaridades, é preciso lembrar o que foi aquele surto.

A pandemia ocorrida em 1918 e 1919, conhecida como “Influenza Hespanhola”, tem sido considerada uma das mais devastadoras e letais da história. Esta enfermidade alastrou-se por todas as regiões do planeta e deixou o maior número de infectados e mortos, se comparada com as pandemias ocorridas até então. Ela teria vitimado 20 milhões de pessoas em todo o mundo (mas alguns estudiosos falam em 50 milhões de mortos). Em relação ao número de doentes, as dificuldades para o cálculo são ainda maiores e os números, mais assustadores: supõe-se que teriam adoecido pelo menos 600 milhões de pessoas.

Existem várias teorias sobre a origem daquela pandemia. O certo é que ela foi propagada, e talvez gerada, pela queda dos padrões sanitários e pelos efeitos da escassez alimentar decorrentes da Primeira Guerra Mundial (conflito bélico ocorrido entre 1914 e 1918). Como consequência dessa situação calamitosa, a pandemia de gripe deixou, em alguns meses, um número maior de mortos do que a própria guerra.

A denominação dada ao surto de 1918 vem do fato de que na Espanha não era segredo os estragos feitos pela gripe. As notícias sobre a pandemia eram publicadas livremente pelos jornais, o que dava a impressão de que lá havia muito mais doentes do que em outras regiões. Outros países preferiram suavizar o impacto causado pela enfermidade ou até mesmo censurar a imprensa a respeito do assunto. A ideia de esconder os estragos da epidemia foi defendida inclusive por instituições de prestígio como a Royal Academy of Medicine de Londres.

“Espanhola” foi a denominação que chegou ao Brasil. Mas na verdade, esta enfermidade acabou recebendo inúmeros nomes diferentes. Os países afetados atribuíam uns aos outros a culpabilidade pela doença. Na Rússia, a doença recebeu o nome de Febre Siberiana; na Sibéria, Febre Chinesa; na França, Catarro Espanhol ou Peste da Senhora Espanhola; na Espanha, foi batizada com o nome de Febre Russa…

Rapidamente, a doença expandiu-se pelo mundo. Provavelmente a rapidez com que se alastrou, em 1918 e no ano seguinte, deveu-se aos deslocamentos e contatos de grandes contingentes de tropas naquele período, devido à guerra e a volta desses soldados para seus países de origem. Mas também, pelo fato do vírus ser altamente transmissível.

Na época, não faltavam notícias dizendo que a doença havia sido uma criação dos alemães. Muita gente acreditava que a moléstia era engarrafada na Alemanha e depois distribuída por seus submarinos, que se encarregavam de espalhar as ditas garrafas perto das costas dos países inimigos. Apanhadas nas praias por gente inocente, espalhava-se assim aquela terrível enfermidade.

A comunidade médica daquele período não conseguiu explicar como uma moléstia branda e tão familiar pudesse estar matando tanto. Desconhecia-se seu agente causador e a forma de contágio (as certezas a respeito de como a gripe é transmitida só vieram à tona na década de 1930). Assim, os médicos puderam fazer pouco para salvar a vida dos doentes. Tudo era feito na base da experimentação.

Um dos remédios utilizados na tentativa de evitar a doença ou curar os doentes foi o quinino (medicamento utilizado originalmente para o combate da malária). Houve uma corrida às farmácias em busca desta substância, seu preço aumentou assustadoramente e o produto acabou se esgotando (situação parecida está sendo vivida atualmente em relação à busca por álcool gel e por máscaras, produtos que não são mais encontrados no comércio).

Considerada até aquele momento uma doença comum e corriqueira, que atacava especialmente idosos (chamada na época popularmente de “limpa-velhos”), a pandemia de 1918 acabou alterando a idade da população afetada. Morreram principalmente homens adultos, entre 20 e 40 anos (pessoas em idade de participarem do mundo do trabalho), o que causou surpresa entre a classe médica. As vítimas provavelmente precisavam sair de casa para trabalhar, e acabavam assim sendo infectadas.

Quanto ao Covid-19, esse novo vírus também se alastrou por todas as regiões do planeta e está deixando igualmente um número muito grande de infectados e mortos. Assim como a Gripe Espanhola, o Coronavírus está causando pânico, paralização da vida cotidiana de boa parte do planeta, vem deixando transparecer antigos problemas sociais e de saúde pública. Esse novo vírus é facilmente transmissível, assim como a gripe, o que facilita sua rápida propagação.

Apesar dos 100 anos que as separam, Gripe Espanhola e Coronavírus tem também em comum a dificuldade dos poderes públicos em lidar com a quantidade muito grande de óbitos, ao não conseguirem dar um destino rápido aos corpos das pessoas mortas e ao terem que realizar sepultamentos em covas coletivas, situações presentes há um século e que já são observadas novamente nos países mais afetados pela pandemia.

Em relação à idade das pessoas que faleceram em função deste novo surto pandêmico, é comum a fala de que o coronavírus é mais letal em pessoas idosas ou que já possuem algum problema de saúde. Entretanto, também existem inúmeros casos de pessoas jovens e saudáveis que vieram a óbito por Covid-19. Tenta-se passar a imagem que ele também é um “limpa-velhos” como a gripe era vista antigamente, mas os dados têm mostrado que a situação real não é exatamente essa.

Se a Gripe de 1918 foi vista como sendo uma moléstia criada artificialmente pelos alemães, o mesmo boato foi espalhado em relação ao coronavírus. Há quem acredite que essa doença seria uma arma biológica, criada em laboratório ou um vírus propositalmente manipulado. Inúmeros boatos circularam na imprensa e nas redes sociais justificando tal teoria. Nos Estados Unidos, há quem acredite que a China foi quem produziu o vírus. Já os chineses acreditam que poderiam ter sido os Estados Unidos que levaram o vírus para seu país. Entretanto, os cientistas confirmaram tratar-se de um vírus que sofreu mutações naturais, transmitido aos humanos provavelmente a partir de algum animal na cidade de Wuhan, na China.

Ainda sobre a Gripe Espanhola cabe destacar que, naquela época, as autoridades brasileiras ouviram com descaso as notícias vindas da Europa. Acreditava-se que o oceano impediria a chegada da doença ao Brasil, o que não aconteceu. A doença chegou ao país a bordo do navio inglês “SS Demerara” (uma espécie de Correios britânicos), no dia 17 de setembro de 1918. Esse navio chegou com a tripulação contaminada e passou livremente pelos portos de Recife, Salvador e Rio de Janeiro, repleto de doentes.

De início, não foram tomadas providências enérgicas para combater a epidemia, pois o Diretor Geral da Saúde Pública, Carlos Seidl, insistia que a gripe tinha um caráter benigno (não era a “espanhola” que estava atacando a Europa, e sim uma “gripezinha”). Seidl julgou que era desnecessário tomar qualquer medida preventiva contra o mal, mesmo com a quantidade de óbitos subindo a cada dia.

Conforme a situação foi piorando, os jornais e parte da população da capital federal passaram a reivindicar o retorno das quarentenas e isolamentos. Porém, Carlos Seidl insistia que quarentenas e isolamentos não eram “nem possíveis, nem legais, nem científicos”. Ele pediu a censura dos jornais, pois acreditava que estes acabavam por incutir crescente pânico na sociedade e ameaçavam a preservação da ordem pública. Segundo ele, o sensacionalismo histérico da imprensa estaria espalhando o pânico de uma epidemia. Em muitas regiões do país, os jornais foram censurados e proibidos de divulgar determinadas notícias a respeito da doença (como, por exemplo, o número de infectados e de mortos).

Conforme a situação foi piorando, Carlos Seidl acabou sendo demitido do cargo e o sanitarista Carlos Chagas passou a chefiar o combate à pandemia, mudando o discurso sobre a doença dado pelo governo federal e tomando medidas mais enérgicas para o combate à enfermidade. Naquele contexto, a vítima brasileira mais ilustre foi o presidente Rodrigues Alves, que morreu em janeiro de 1919, antes de assumir o cargo para o qual havia sido eleito meses antes.

Nos dias atuais, novamente se culpam os meios de comunicação por espalharem a sensação de pânico entre a população, ao anunciarem o grande número de vítimas em outros países. Novamente a imprensa é acusada de ser causadora de uma histeria desnecessária. Além disso, aqui no Brasil inúmeras pessoas passaram a negar a existência da pandemia. Muitos afirmaram que era uma mentira da imprensa, que nada daquilo era verdade.

No dia 24 de março, nosso atual presidente da República deu um pronunciamento em rede nacional, no mesmo tom usado por Carlos Seidl há 102 anos atrás. Insistiu que o Coronavírus não passaria de uma “gripezinha”, que alguns governadores estariam equivocados ao decretar isolamento social, que o pânico gerado pela doença foi fruto do sensacionalismo da imprensa. Além disso, o presidente pediu que as pessoas retornassem ao trabalho, voltassem a normalidade assim como as pessoas que viveram em 1918 tentaram fazer no início daquele surto epidêmico.

Enfim, as duas pandemias possuem inúmeras semelhanças, mas vale ressaltar também suas diferenças. Ao contrário da Gripe Espanhola, o atual surto tem sua origem já estabelecida, suas formas de propagação bem conhecidos e maneiras de evitar a contaminação. A situação está gerando uma corrida contra o tempo na busca por um remédio para curar os doentes e por uma vacina para tentar evitar novos casos. Não há comparação entre o conhecimento científico de um século atrás e o atual. Vale destacar aqui o importante papel que a Fundação Oswaldo Cruz vem desempenhando neste contexto.

Esta instituição centenária já existia na época da epidemia de Gripe. Ela foi criada em 1900, com o nome de Instituto Soroterápico Federal, na distante Fazenda de Manguinhos, Rio de Janeiro. Seu intuito original era fabricar soros e vacinas contra a peste bubônica. Em 1909 mudou seu nome para Instituto Oswaldo Cruz, em homenagem àquele grande sanitarista, diretor da instituição. Aos poucos, foi ampliando suas atividades e seu papel dentro do cenário científico brasileiro.

A atual Fundação Oswaldo Cruz se tornou uma referência em termos de pesquisa e orientação sobre a pandemia que estamos vivendo. Além disso, há poucos dias, a Organização Mundial de Saúde oficializou a Fiocruz como laboratório de referência para o combate ao novo coronavírus nas Américas. O que significa que a instituição poderá receber amostras do Covid-19 de outros países da região, para realizar o sequenciamento genético, localizar mutações e seguir os estudos que possam levar ao desenvolvimento de uma vacina ou medicamentos. É um título conferido a poucos laboratórios no mundo.

O espalhamento da doença por causa da dificuldade de medidas de isolamento social, devido à falta de amparo ao trabalhador.

Em 1918, não houve essa preocupação em relação ao isolamento social. Era recomendado evitar aglomerações desnecessárias, mas não se impôs nada tão rígido à população como as medidas que estão sendo colocadas em prática atualmente. Foi a quantidade de pessoas doentes ao mesmo tempo que acabou gerando a paralização não intencional do cotidiano das cidades.

Minha pesquisa sobre a Gripe Espanhola se centrou na cidade de Porto Alegre. A partir do dia 18 de outubro de 1918, começaram a ser verificados casos da doença entre os habitantes daquele município, a partir da chegada de alguns navios com pessoas infectadas. A partir daí, o número de doentes aumentou a cada dia. O auge da epidemia foi o período entre os dias 26 de outubro e 23 de novembro.

Na pesquisa que desenvolvi, utilizei como fonte principal a imprensa daquele momento. Os jornais porto-alegrenses transmitiam o pânico que a doença estava causando. Rapidamente começaram a apontar a situação como tomando o aspecto de uma das maiores epidemias que já havia assolado Porto Alegre. Segundo os jornalistas, subiam a alguns milhares os casos de gripe na cidade. Havia casas em que todas as pessoas se achavam atacadas da moléstia. O êxodo das famílias era notável, apresentando o centro da capital desolador aspecto. Raro era o pedestre que caminhava pelas ruas. O comércio fechado deu a capital a forma de uma cidade morta e sem vida. Um século depois, pelos relatos que se tem da situação atual, é assim que Porto Alegre voltou a ficar com a nova pandemia. Mas agora, o esvaziamento das ruas e a ausência de circulação de pessoas foram atos impostos pelos governantes, antes que o número de doentes se agrave de forma descontrolada, numa tentativa de desacelerar a curva de ascensão do surto.

Os jornais de 1918 nos mostram que os serviços básicos da cidade não conseguiram ser realizados com a regularidade de antes. A entrega dos jornais era feita de forma irregular e o mesmo ocorria com as correspondências. Entre os funcionários dos correios e os carteiros, os tipógrafos e os entregadores de jornal, muitos estavam doentes.

Nos estabelecimentos comerciais e industriais, o número de funcionários doentes aumentava a cada dia. Com dificuldades para funcionar devido à enfermidade dos funcionários, e ressentindo-se pela falta de movimento devido à enfermidade dos clientes, muitas lojas fecharam as portas. Apenas as farmácias continuaram abertas, e passaram a estar sempre lotadas. Os médicos, por sua vez, não davam conta de atender o elevado número de doentes, e acabavam eles mesmos adoecendo.

De acordo com o médico e escritor Pedro Nava, que presenciou os acontecimentos de 1918 no Rio de Janeiro, nenhuma outra doença chegou aos pés daquela pandemia. Segundo ele, espantoso já não era a quantidade de enfermos, mas o fato de estarem quase todos doentes, a impossibilidade de ajudar, tratar, transportar comida, vender gêneros, exercer, em suma, as atividades indispensáveis à vida cotidiana. O assustador já não era o número de mortos, mas o fato de não haver quem fabricasse caixões, que os levasse ao cemitério, que abrisse covas e os enterrasse. Estima-se que 66% da população carioca tenha adoecido naquela ocasião (as estimativas para outras regiões do país não devem ser muito diferentes). E foi a quantidade imensa de doentes que acabou criando uma situação de um isolamento não intencional.

A falta de direitos trabalhistas na época e a atual precarização das leis trabalhistas.

Uma questão que ajudou a agravar a situação dos trabalhadores pobres em 1918 foi a inexistência de uma legislação trabalhista que obrigasse os patrões a pagar o salário dos funcionários que não fossem trabalhar, por estarem doentes. Durante a epidemia, algumas empresas não realizaram o pagamento dos salários dos trabalhadores infectados pela enfermidade, o que ocasionou o agravamento da situação de miséria em que estes se encontravam. Em algumas ocasiões, esses empregados doentes acabaram voltando ao trabalho por precisarem de dinheiro, o que provavelmente ajudou a espalhar ainda mais a doença.

Os jornais da época passaram a tornar público os casos em que algumas empresas passaram a não pagar o salário dos funcionários que estavam afastados do trabalho por estarem doentes. Por outro lado, paralelamente à publicação dessa notícia, a imprensa passou a divulgar o nome das empresas que estavam pagando normalmente o ordenado de seus trabalhadores, como um bom exemplo a ser dado.

A Gripe Espanhola assolou o mundo em um contexto de liberalismo econômico; o Coronavírus apareceu num contexto de neoliberalismo. As relações trabalhistas, consequentemente, vão ser fruto deste contexto mais amplo. Neste sentido, para amenizar o prejuízo dos empresários em função do isolamento social decretado, presenciamos a flexibilização das demissões e a redução dos salários nesse período de pandemia. Há alguns anos o Brasil está tendo sua legislação trabalhista modificada e a atual pandemia acaba por piorar este cenário de precarização das leis que regulamentam o mundo do trabalho.

Quais foram as medidas adotadas pelos governantes na época da Gripe Espanhola?

No início do século XX o Brasil era um país federalista. Cada “presidente de estado” (esse era o nome dado aos governadores naquele momento histórico) tinha plena autonomia para tomar as providências que achassem necessárias para combater a pandemia. Na época, as medidas foram muito peculiares para cada região do país. Hoje em dia, observamos novamente essa descentralização de ações para o combate ao coronavírus: o presidente da nação dá uma orientação sobre o assunto; por sua vez, os governadores acabam agindo autonomamente e tomando decisões contrárias as indicadas pelo governo federal.

No caso específico do Rio Grande do Sul, em 1918 o governo do estado criou algumas estratégias e ações para tentar combater a pandemia, concentrando-se na capital Porto Alegre: ordenou a realização de inspeções e desinfecções de locais suspeitos de estarem contaminados; criou enfermarias (instaladas em escolas e batalhões da Brigada Militar); dividiu a cidade em quarteirões sanitários, com cada quarteirão possuindo um médico auxiliado por alunos da Faculdade de Medicina…

O governo gaúcho da época não decretou isolamento como estamos vivendo no momento atual. Ele apenas suspendeu as aulas, e temos que levar em consideração que o número de escolas naquela época era muito menor do que o atual, pois ainda não vigorava a ideia de ensino público gratuito e obrigatório (portanto, escola era coisa para poucos privilegiados). Também foram fechadas casas de diversões, como teatros, cinemas, cafés…

Nos documentos que consultei, não encontrei nenhuma referência relacionada a proibições em relação ao comércio ou indústria. Entretanto, como o número de empregados doentes era muito grande, muitos estabelecimentos comerciais ou industriais fecharam as portas, por falta de trabalhadores ou de clientes.

Além disso, naquele momento o Governo criou um órgão de caráter assistencialista, chamado de Comissariado de Abastecimento e Socorros Alimentícios, para prestar socorro aos domicílios das pessoas mais pobres, que estivessem passando por necessidades.

Por sua vez, a Intendência Municipal de Porto Alegre, tentando minimizar o problema da carência no abastecimento da cidade e da especulação em torno dos preços dos gêneros de primeira necessidade, estabeleceu o preço máximo de venda de alimentos e de medicamentos.

Entretanto, apesar de todos os esforços do Governo do Estado e da Intendência Municipal, suas ações não foram suficientes para melhorar a situação das camadas pobres da população, que padeciam em função da doença em si e devido à falta de comida. A pandemia acabou agravando a miséria de parte da população, e foram exatamente essas pessoas que mais sofreram com toda a situação provocada pela pandemia.

A tua pesquisa apresenta ações realizadas pela sociedade porto-alegrense para auxiliar a população no período da Gripe Espanhola. Quais são as atitudes que podem servir para o contexto atual?

Para tentar ajudar, a sociedade da época tomou para si a tarefa de minorar a crise vivida pelas camadas mais pobres da população. Alimentos,  medicamentos e contribuições em dinheiro foram arrecadados por diversos setores da sociedade (Maçonaria, grupos operários, entidades médicas), a fim de socorrer o contingente cada vez maior de pessoas atingidas pela doença e pela fome. Cada grupo que participou desta mobilização desenvolveu a sua maneira de ajudar ou de pedir ajuda.

Na pesquisa que desenvolvi, consegui acompanhar nos jornais as notícias de comerciantes fazendo doação de produtos, pessoas da sociedade doando dinheiro para os grupos mobilizados, oferecimento de atendimento médico gratuito no domicílio das pessoas doentes (naquela época era comum o médico ir até o doente, e não o contrário). Tudo acabava sendo divulgado na imprensa. Essas ações foram sempre noticiadas como sendo atitudes louváveis, de grandeza, e que deveriam ser copiadas por quem tivesse condições.

Atualmente, além da doença em si, estamos enfrentando igualmente uma crise econômica gerada pelo isolamento, que se somou aos problemas econômicos que o país já possuía. Muitos defendem que é preciso pensar na economia; já os especialistas advertem que a economia se recupera, mas as vidas perdidas não. Neste sentido, a paralização do cotidiano, o fechamento do comércio e da indústria, a paralização das relações econômicas acaba por gerar crise, desemprego, e consequentemente já está aumentando a miséria no nosso país. Mesmo que o governo crie mecanismos para tentar minimizar esses problemas, cabe a sociedade tentar copiar o exemplo de 1918, se mobilizar e tentar ajudar quem necessita, seja em função da doença, seja em função dos problemas econômicos gerados pela pandemia, seja pelos históricos problemas de desigualdade social presentes no Brasil há séculos que estão sendo piorados pela atual situação.

Hoje em dia estamos acostumados a ver como dever do Estado esse tipo de ação. Mas acabamos esquecendo que o Estado não consegue chegar a todos os lugares do Brasil. Esquecemos que nossa tradicional burocracia acaba dificultando tais ações. Enquanto isso, uma infinidade de famílias no nosso país já está passando fome. Cabe a nossa sociedade aprender com a solidariedade do passado, tentar se mobilizar e buscar amenizar de alguma forma os problemas derivados da pandemia, seja com a doação de alimentos ou cestas básicas, seja com a doação de dinheiro para grupos que já estejam mobilizados para esse fim. O importante é cada um ajudar como pode.

Gabrielle Werenicz Alves Graduada em História pela UFRGS. Mestre em História pela PUCRS, com bolsa do CNPq. Autora do livro “Os Caminhos da Saúde Pública Rio-Grandense: Continuidades e transformações na Era Vargas” (Curitiba: Editora Prismas, 2015) e do artigo “Os braços da salvação: a mobilização de auxílio aos infectados pela Gripe Espanhola” (Porto Alegre: Corag, 2007), dentre outros. Coautora de “Hospital Psiquiátrico São Pedro: 125 anos de história” (Porto Alegre: Edipucrs, 2009) e “Instituições de Saúde de Porto Alegre” (Porto Alegre: Ideograf, 2008).  Foi bolsista da Fundação Oswaldo Cruz no projeto “REDE BRASIL: Inventário nacional do patrimônio cultural da saúde – bens edificados e acervos”. Foi professora colaboradora da UFES. Atualmente, é professora efetiva da rede estadual de ensino do Espírito Santo.

Leia mais artigos e entrevistas e análises em: https://www.ufrgs.br/ifch/index.php/br/coronacrise

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

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ALVES, Gabrielle Werenicz. Os braços da salvação: a mobilização de auxílio aos infectados pela Gripe Espanhola – Porto Alegre (1918). In: V Mostra de Pesquisa do Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul: Produzindo História a partir de fontes primárias. Porto Alegre: Corag, 2007. p. 227-245. Disponível em: <https://drive.google.com/file/d/17t5FzHHeipdTvTE7nr91k5iyRKDDjvd9/view>.

________________. Um novo cotidiano na cidade: A Gripe Espanhola e a mobilização de auxílio aos infectados (Porto Alegre – 1918). In: II Congresso Internacional UFES / Université de Paris-Est, XVII Simpósio de História da UFES: Cidade, Cotidiano e Poder / La ville, le quotidien et le pouvoir, 2009, Vitória. Anais eletrônicos do II Congresso Internacional UFES / Université de Paris-Est, XVII Simpósio de História da UFES. Vitória: GM Editora, 2009.

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