“Para mim é só gratidão”. Foi assim que a agricultora Ilnéia Barros finalizou o quarto e último módulo de capacitação para produtores rurais beneficiados com o plantio de agrofloresta nas bacias dos rios Descoberto e Paranoá, no Distrito Federal. O curso fez parte de uma iniciativa de implementação de Sistemas Agroflorestais (SAFs) Mecanizados, desenvolvida pela Secretaria do Meio Ambiente (SEMA-DF) e que integra o CITinova, um amplo projeto multilateral realizado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI) para a promoção de sustentabilidade nas cidades brasileiras por meio de tecnologias inovadores e planejamento urbano integrado, com financiamento do Fundo Global para o Meio Ambiente. O projeto é executado pela SEMA, em Brasília, com gestão do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE).

Iniciada nos primeiros meses de 2019 com o plantio consorciado de espécies arbóreas e frutíferas nativas do cerrado, os SAFs já garantem  alimentos e  benefícios econômicos para 37 famílias e contemplam uma área total de 20 hectares nas bacias do Descoberto e da Serrinha do Paranoá, no DF.

E para concluir essa última etapa, Ernst Götsch, especialista em Agricultura Sintrópica, realizou uma oficina sobre manejo e ensinou os produtores como utilizar a terceira máquina inovadora que entregou ao programa: um podador de altura de grande utilidade para o manejo nas linhas de plantio, onde árvores mais altas convivem com legumes, hortaliças e outros produtos da agrofloresta.

No total o projeto piloto de SAFs mecanizados ofereceu quatro módulos de cursos teóricos e práticos para pequenos agricultores da região; plantio em mutirão de agrofloresta, com orientação de especialistas, em cerca de 1/2 hectare (ou 5 mil m²) de cada família selecionada; ações de manutenção; e entrega das três novas tecnologias inovadoras para facilitar e acelerar o plantio.

Além disso, a ação tem o objetivo de recuperar áreas degradadas e Áreas de Preservação Permanente (APPs), garantindo a segurança hídrica da região, e servir de modelo a ser replicada em outras regiões do DF e de todo o país.

Oficinas e apresentação do novo equipamento

Entre os dias 3 e 6 de dezembro, 37 agricultores participaram do módulo final, oferecido pela SEMA-GDF e dividido em duas turmas devido ao distanciamento imposto pela epidemia da Covid 19. Nos dois primeiros dias, Yumi Parralego e Igor Aveline, do Centro Internacional de Água e Transdisciplinaridade (Cirat), ensinaram novas  técnicas na região conhecida como Serrinha do Paranoá, que já possui SAFs há um ano. Nos últimos dois dias, o curso foi ministrado por Ernst Götsch, no Sítio Semente, em Brazlândia, referência em agrofloresta na região.

Harmonia com a natureza

Partindo do desejo de estar em harmonia com a natureza, Götsch, em 1974, trocou as pesquisas em laboratório por experimentos no campo, quando ainda vivia na Suíça e depois na Alemanha. Na década de 80, o pesquisador chegou ao Brasil e se fixou na zona cacaueira do sul da Bahia, continuando o trabalho com agloflorestas, hoje conhecido em todo país.

Götsch defende novas formas de trabalhar no campo. Para ele o SAF “é a tentativa de muitas pessoas de chegar a uma reconciliação com a natureza”. Mesma posição defendida por Nazaré Soares, coordenadora do projeto CITinova pela Sema: “É muito importante que esses produtores tenham bom conhecimento sobre essa etapa de manejo utilizando novas técnicas como o corte das espécies mais altas”. Dessa forma, o uso de boas técnicas de manejo ajudarão para que as espécies menores na mesma linha de plantio tenham boas condições para se desenvolver.

Tecnologia inovadora

Ernst Götsch desenvolveu máquinas que auxiliam a atividade dos produtores rurais, promovendo  a implantação de agroflorestas em grande escala. “A meta é usar tecnologia a serviço da vida”, afirmou.

No total, são três máquinas inovadoras testadas pela SEMA, com financiamento do projeto CITinova: a subsoladora com enxada rotativa, que prepara os canteiros para o plantio; a ceifadeira-enleiradeira, que ceifa e enleira o capim para manter o solo coberto; e o podador de altura, que facilita a elevação do operador da motosserra ou da tesoura hidráulica para fazer a poda das árvores em altura.

A atividade no campo exige grande esforço físico para utilizar as ferramentas, por isso os novos instrumentos ajudam também as mulheres agricultoras, como Elivânia Correa. “As máquinas adaptadas ajudam muito, porque o trabalho na roça é muito pesado”, reconhece.

Buscando a representatividade dos jovens no campo, Caio Oliveira, estudante de 16 anos que acompanha o pai em sua agrofloresta, no Assentamento Canaã, em Brazlândia, também participou do curso. Para ele, o manejo é muito importante para dar continuidade ao SAF, e o uso do maquinário “otimiza o tempo de trabalho e a mão de obra, porque quem faz agrofloresta sabe que o manejo é muito difícil”.

Para Fabiana Penereiro, instrutora de SAFs do Cirat, empresa contratada pelo projeto, “o manejo correto traz a dinâmica do sistema e faz com que todo ele prospere”. E completou: “o projeto veio para somar nessa caminhada de desenvolvimento de novas máquinas”.

Novas perspectivas

“Tenho muita gratidão pelo que aprendemos aqui. Foi com os SAFs que conseguimos uma nova forma de produzir alimentos”, afirma Ilnéia Barros, que antes sentia dificuldades para produzir no Assentamento Canaã. “Eu, pela minha falta de conhecimento, achava que, onde plantava mandioca, era só mandioca. A gente não tinha aquele consórcio de frutas e verduras.”

A agrofloresta também ajudou a manter a água da cisterna da agricultora Elivânia Barros. “No ano passado, eu buscava água lá na rua e, hoje, eu tenho água da cisterna, que não secou durante o período de seca daqui”, disse.

Por se tratar de áreas degradadas, para Roseli Medeiros, engenheira agrônoma da Emater, órgão que possui acordo de cooperação com a SEMA e também acompanhou a implantação do projeto, a agrofloresta é um estímulo para as famílias selecionadas. “O resultado é também muito visual e isso anima as famílias,  fazendo com que todos se sintam bem naquele ambiente”, contou.

“É uma estratégia inovadora e promissora, pois permitirá aos agricultores migrarem para uma agricultura mais sustentável, que associa geração de renda com produção de água”, ressaltou o secretário do Meio Ambiente, Sarney Filho. Ele acrescentou que observar como o projeto melhora a qualidade da terra,  contribuindo para o aumento da produção de água na região é gratificante para todos envolvidos.

Fonte: MCTI

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