Agência Brasil

Nota do autor: Antes de iniciarmos com a exposição, é importante ressaltar que este autor mantém uma postura apartidária. O foco central está na conscientização da população sobre a importância de acatar os alertas emitidos pelas autoridades, bem como na necessidade de implementar e colocar em prática planos de contingência e respostas pós-desastres de maneira eficiente e coordenada em todo território brasileiro.

A presente intempérie que assola e continuará a impactar por alguns dias o estado brasileiro do Rio Grande do Sul é, inegavelmente, o mais grave fenômeno climático já registrado em sua história, superando até mesmo a catastrófica enchente de 1941, um dos mais devastadores desastres naturais já testemunhados nesta região. Naquela época, o transbordamento de vários rios, incluindo o Uruguai e o Jacuí, resultou na inundação de vastas áreas, acarretando em consideráveis danos materiais e perdas humanas, com impactos particularmente severos em localidades como Porto Alegre, Santa Maria, Uruguaiana e São Borja, entre outras.

O desastre da década de 1940 não apenas evidenciou a importância crucial da prevenção de eventos naturais adversos, mas também a necessidade premente de uma resposta eficaz diante de situações emergenciais. Contudo, surge a indagação: será que o estado e, de forma mais ampla, o Brasil assimilaram verdadeiramente a importância dessas medidas emergenciais e da atenção contínua à contingência e à coordenação pós-desastre?

De acordo com estimativas do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), alguns pontos do Rio Grande do Sul registraram quase 700 milímetros de precipitação. Em virtude do escopo deste texto, abstemo-nos de discutir os motivos subjacentes a essa elevada incidência de chuvas na região sul do país, direcionando nossa reflexão à imperativa observância da relevância de estabelecermos planos de contingência, de emergência e, sobretudo, de alerta para riscos e desastres e ações coordenadas pós-desastres.

O cenário atual no Rio Grande do Sul, composto por 497 municípios, revela que 401 destes enfrentam algum tipo de adversidade relacionada às intempéries e 336 cidades, o Governo Federal reconheceu como calamidade pública, afetando aproximadamente 1,178 milhão de indivíduos. Até o momento desta redação, a Defesa Civil do estado reporta 95 óbitos confirmados, com mais quatro casos em processo de investigação, números que, lamentavelmente, tendem a aumentar significativamente à medida que as águas recuam.
Adicionalmente, são relatados 131 desaparecidos e 372 feridos. Presentemente, mais de 207,8 mil pessoas encontram-se desalojadas, sendo que 48,8 mil delas foram acolhidas em abrigos.

Nesse contexto de constante fluxo de notícias e informações acerca da crise no sul do país, destacam-se pontos que não apenas merecem atenção no âmbito regional, mas que também possuem relevância para todo o território nacional:

  • Apesar dos alertas emitidos pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) acerca dos riscos de tempestades, frequentemente estes não são devidamente considerados, ou são repassados à população pelos governos locais de forma ineficaz. Muitas cidades, especialmente aquelas suscetíveis a desastres naturais, como aquelas situadas às margens de rios e/ou do mar e/ou regiões de encostas, barragens, usinas e outros, carecem de planos de contingência efetivos e mecanismos de gerenciamento de riscos e desastres, além de falta de manutenção dos meios de contenção de possíveis áreas de riscos.
  • A população, por sua vez, demonstra hesitação, descrença ou negligência em relação aos alertas e recomendações das autoridades para evacuação de áreas de risco. É recorrente observar indivíduos permanecendo em locais sob iminente perigo, tornando-se potenciais vítimas.
  • No contexto pós-desastre, emerge a crítica falta de planejamento prévio, equipamentos que atendem a região específica, profissionais capacitados e, sobretudo, de coordenação entre as equipes encarregadas da gestão da crise.
  • A lentidão de certa forma na resposta e mobilização dos recursos das Forças Armadas e auxiliares para o auxílio pós-desastre é deveras preocupante, tendo em vista os alertas prévios sobre a iminência da enchente. Vale salientar, que após acionada (após o desastre) a resposta das forças armadas e forças auxiliares foi ágil em partes, considerando o tamanho do deslocamento e suas dificuldades claras.
  • A desinformação alimentada por rumores, teorias da conspiração, distorções, podem implicar em nenhuma consequência de natureza grave, podendo ser considerada apenas uma “brincadeira”; mas pode acarretar consequências gravíssimas e sérias, especialmente em situações de crise como esta vivida no Sul do país.
  • Apesar do valioso apoio prestado por uma vasta rede de voluntários, cujo engajamento é louvável, deparamo-nos frequentemente com indivíduos não devidamente preparados para prestar assistência, e, em alguns casos, até mesmo com o surgimento de oportunistas que se mascaram sob o pretexto de atuar em ações humanitárias. Tal cenário, por vezes, resulta não apenas em ineficiência na prestação de auxílio, mas também na ampliação do rol de vítimas afetadas pela calamidade.

No cenário caótico que se segue após a enchente avassaladora, somos confrontados não apenas com os estragos físicos, mas também com os desafios éticos e sociais que emergem em meio à tragédia. Enquanto enfrenta-se os efeitos devastadores das águas, nos vemos também atormentados por um flagelo paralelo: a disseminação de fake news, desinformação, saques e a presença nefasta de oportunistas que exploram a “miséria” alheia em suas formas mais abjetas.

O atual estado de alerta para perigo extremo no sul do Estado, com previsão de chuvas volumosas e ventos de até 85 km/h, nos coloca diante de um cenário de urgência e necessidade de resposta coordenada. À medida que nos aproximamos da quarta-feira (8/5), a formação iminente de um ciclone extratropical e de uma frente fria acrescenta novos desafios, com a queda brusca das temperaturas e o aumento do risco de hipotermia para aqueles desabrigados e aguardando resgate sob as intempéries. Há sinalização que a enchente persistirá por ao menos 10 dias em Porto Alegre e região metropolitana.

A situação é ainda mais grave considerando a vulnerabilidade extrema da população, afetada não apenas pela destruição das estruturas básicas de vida, como energia, água potável e comunicação, mas também pela escassez de alimentos e combustíveis. A prestação de serviços de saúde é severamente prejudicada, ampliando o espectro de preocupações para além dos traumas físicos, com o temor de contaminação por água imprópria por exemplo.

A ajuda externa e as evacuações se tornam ainda mais desafiadoras diante dos acessos prejudicados pelas condições climáticas adversas. As rodovias do RS registram bloqueios totais e parciais, assim como as federais, enquanto o Aeroporto Salgado Filho tem suas operações suspensas por tempo indeterminado, os resgates realizados apenas com o uso de helicópteros e barcos, exemplificando a dimensão do caos logístico.

À medida que o tempo se estabilizar e as águas recuarem um pouco, a população enfrentará uma árdua jornada de recuperação. Os desafios são múltiplos: reconstruir lares destruídos, lidar com a perda de entes queridos e a desolação emocional, além de reerguer as estruturas econômicas e sociais fundamentais para a comunidade.

Nesse contexto, a solidariedade e a determinação da população brasileira se revelam como luzes em meio à escuridão da tragédia, contudo, a reflexão sobre a urgência de aplicação efetiva de protocolos de prevenção, resposta e recuperação diante de desastres naturais se faz imprescindível. É essencial que estejamos preparados e conscientes em todo o território nacional para enfrentar os desafios que se apresentam, buscando conhecimento, em especial via Defesa Civil Nacional e promovendo uma cultura de segurança e resiliência que possa mitigar os impactos devastadores sobre as comunidades afetadas por desastres e/ou vivem em zonas de risco.

Toda solidariedade às vítimas de desastres.