Por Nick Paton Walsh

Google News

A Rússia está acumulando um poderio militar sem precedentes no Ártico e testando suas mais novas armas em uma região sem gelo (devido à mudança climática) em uma tentativa de proteger sua costa norte e abrir uma rota marítima importante da Ásia para a Europa.

Especialistas em armas e autoridades ocidentais expressaram preocupação especial com uma “superarma” russa, o torpedo Poseidon 2M39. O desenvolvimento do torpedo está avançando rapidamente. O presidente russo, Vladimir Putin, pediu ao ministro da Defesa, Sergei Shoigu, uma atualização sobre um “estágio fundamental” da evolução do torpedo, com mais testes planejados para este ano, de acordo com vários relatórios da mídia estatal.

O torpedo com tecnologia stealth (que impede sua detecção) não tripulado é alimentado por um reator nuclear e projetado por cientistas russos para passar furtivamente pelas defesas costeiras (como as dos EUA) no fundo do mar.

O dispositivo tem como objetivo lançar uma ogiva de vários megatons, de acordo com autoridades russas, causando ondas radioativas que tornariam áreas da costa-alvo inabitáveis por décadas.

Em novembro, Christopher A. Ford, então secretário de Estado assistente para Segurança Internacional e Não Proliferação dos EUA, disse que o Poseidon foi projetado para “inundar as cidades costeiras dos Estados Unidos com tsunamis radioativos”.

Os especialistas concordam que a superarma é “muito real” e já está dando frutos. O chefe da inteligência norueguesa, vice-almirante Nils Andreas Stensønes, disse à CNN que sua agência avaliou o Poseidon como “parte do novo tipo de armas nucleares de dissuasão. E está em fase de testes. Mas é um sistema estratégico e direcionado a alvos e tem uma influência que vai muito além da região em que é testado atualmente”. Stensønes se recusou a dar detalhes sobre o que sabe dos testes do torpedo até o momento.

Imagens de satélite fornecidas à CNN pela empresa de tecnologia espacial Maxar detalham uma construção nítida e contínua de bases militares russas na costa ártica do país, junto com instalações de armazenamento subterrâneo para o Poseidon e outras novas armas de alta tecnologia. Os equipamentos russos na área do Alto Norte incluem bombardeiros e jatos MiG31BM, além de novos sistemas de radar perto da costa do Alasca.

O acúmulo de material russo foi acompanhado pelos movimentos de tropas e equipamentos da OTAN e dos EUA. Os bombardeiros norte-americanos B-1 Lancer estacionados na base aérea norueguesa de Ørland concluíram recentemente missões no leste do Mar de Barents, por exemplo. Sabe-se que, em agosto, o submarino com tecnologia stealth Seawolf, das forças armadas dos EUA, estava na área.

Uma autoridade da cúpula do Departamento de Estado disse à CNN: “Há claramente uma intimidação militar dos russos no Ártico”, incluindo a reforma de antigas bases da Guerra Fria e a construção de novas instalações na Península de Kola, perto da cidade de Murmansk. “Isso tem implicações para os Estados Unidos e seus aliados, até porque cria a capacidade de projetar esse poder até o Atlântico Norte”, completou.

As imagens de satélite mostram o fortalecimento lento e metódico de aeródromos e bases “trifólio” (com um design semelhante a um trevo, pintado com o vermelho, branco e azul da bandeira russa) em vários locais ao longo da costa ártica da Rússia nos últimos cinco anos. As bases estão dentro do território russo e fazem parte da defesa legítima de suas fronteiras e de seu litoral. As autoridades norte-americanas expressaram preocupação, no entanto, de que as forças possam ser usadas para estabelecer o controle de fato sobre áreas do Ártico que estão mais distantes e que logo estarão livres de gelo.

“A Rússia está reformando aeródromos e instalações de radar da era soviética, construindo novos portos e centros de busca e resgate e aumentando sua frota de quebra-gelos nucleares e convencionais”, relatou o tenente-coronel Thomas Campbell, porta-voz do Pentágono, para a CNN.

“O país também está expandindo sua rede de sistemas de mísseis de defesa aérea e costeira, fortalecendo assim suas capacidades de antiacesso e negação de área em porções importantes do Ártico”, acrescentou.

Campbell também observou a recente criação de uma força de Alerta de Reação Rápida em dois aeródromos do Ártico, Rogachevo e Anadyr, e a tentativa de montar outra força no aeródromo de Nagurskoye no ano passado. Imagens de satélite de 16 de março mostram prováveis caças MiG31BM em Nagurskoye, possivelmente pela primeira vez, trazendo uma nova capacidade do poder aéreo russo com tecnologia stealth para o extremo norte.

Armas de alta tecnologia também estão sendo testadas regularmente na área do Ártico, de acordo com autoridades russas citadas na mídia estatal e fontes ocidentais.

Campbell, do Pentágono, lembrou que, em novembro, a Rússia confirmou um teste bem-sucedido do míssil de cruzeiro hipersônico antinavio Tsirkon.

O Tsirkon e o Poseidon fazem parte de uma nova geração de armas prometidas por Putin em 2018 como divisores de água no jogo estratégico em um mundo em rápida mudança.

Na época, as autoridades norte-americanas desprezaram as novas armas como tecnicamente muito rebuscadas e improváveis. Mesmo assim, os russos parecem estar se aproximando da concretização delas. O chefe da inteligência norueguesa Stensønes descreveu à CNN o Tsirkon como uma “nova tecnologia, com velocidades hipersônicas, contra a qual é difícil se defender”.

Na quinta feira (1), a agência de notícias estatal russa TASS citou uma fonte do complexo industrial militar dizendo que houve outro teste bem-sucedido do míssil Tsirkon a partir do navio de guerra Almirante Gorshkov. Segundo a TASS, todos os quatro foguetes de teste atingiram seu alvo e que outro nível mais avançado de testes começaria em maio ou junho.

A emergência climática removeu muitas das defesas naturais da Rússia ao norte, como paredes de gelo, em um ritmo inesperado. “O derretimento está se movendo mais rápido do que os cientistas previram ou pensaram ser possível há vários anos”, disse a fonte do Departamento de Estado. “Será uma transformação dramática nas próximas décadas em termos de acesso físico”.

Autoridades norte-americanas também expressaram preocupação com a aparente tentativa de Moscou de influenciar a Rota do Mar do Norte (NSR na sigla em inglês), um caminho marítimo que vai da Noruega ao Alasca, ao longo da costa norte da Rússia, até o Atlântico Norte. A NSR reduz potencialmente pela metade o tempo que os contêineres atualmente levam para chegar à Europa vindos da Ásia através do Canal de Suez.

A empresa nuclear russa Rosatom lançou em fevereiro desde ano um vídeo feito por drone do navio-tanque Christophe de Margerie completando uma rota oriental através do Ártico no inverno pela primeira vez, acompanhado pelo quebra-gelo nuclear 50 Let Pobedy. A jornada atravessou três dos os seis mares do Ártico.

Campbell disse que a Rússia tenta explorar a NSR como uma “importante rota de navegação internacional”, mas expressou preocupação com as regras que Moscou está tentando impor aos navios que usam a rota. “As leis russas que regem o tráfego da NSR excedem a autoridade da Rússia sob a lei internacional”, disse o porta-voz do Pentágono.

“Eles exigem que qualquer navio em trânsito na NSR por águas internacionais tenha um piloto russo a bordo para guiar o navio. A Rússia também está tentando exigir que os navios estrangeiros obtenham permissão antes de entrar na NSR”.

O funcionário sênior do Departamento de Estado acrescentou: “As afirmações russas sobre a Rota do Mar do Norte são certamente um esforço para estabelecer algumas regras de trânsito, obter algum consentimento real por parte da comunidade internacional e, então, afirmar que é assim que as coisas devem funcionar”.

Elizabeth Buchanan, professora de Estudos Estratégicos na Deakin University, na Austrália, disse que “a geografia básica dá à Rússia a NSR, que tem o gelo cada vez mais fino durante a maior parte do ano, tornando-a comercialmente viável para uso como artéria de transporte. Isso ainda pode transformar o transporte marítimo global e, com ele, os movimentos de 90% de todas as mercadorias globalmente”.

A fonte do Departamento de Estado acredita que os russos estão mais interessados em exportar hidrocarbonetos (essenciais para a economia do país) ao longo da rota, mas também estão de olho nos recursos que estão sendo descobertos pelo degelo rápido. A flexibilização de seus músculos militares no norte (crucial para a estratégia de defesa nuclear de Moscou, e principalmente no território costeiro russo) poderia ser uma tentativa de impor seu poder em uma área mais ampla, disse a autoridade norte-americana.

“Quando os russos estão testando armas, bloqueando sinais de GPS, fechando espaço aéreo ou marítimo para exercícios, ou voando com bombardeiros sobre o Ártico ao longo do espaço aéreo de aliados e parceiros, estão sempre tentando enviar uma mensagem”, acrescentou.

O Ministério das Relações Exteriores da Rússia se recusou a comentar, mas o governo do país há muito mantém que suas metas no Ártico são econômicas e pacíficas.

Um documento de março de 2020 dos formuladores de políticas do Kremlin apresentou os principais objetivos da Rússia em uma área responsável por 20% de suas exportações e 10% de seu PIB. A estratégia se concentra em garantir a integridade territorial da Rússia e a paz regional. Também expressa a necessidade de garantir altos padrões de vida e crescimento econômico na região, bem como desenvolver uma base de recursos e a NSR como “um corredor de transporte nacional competitivo globalmente”.

Putin gosta de exaltar a importância da superioridade tecnológica da Rússia no Ártico. Em novembro, durante a inauguração de um novo navio quebra-gelo em São Petersburgo, o presidente russo disse: “Todos sabem que temos uma frota quebra-gelo única que ocupa uma posição de liderança no desenvolvimento e estudo dos territórios árticos. Devemos reafirmar esta superioridade constantemente, todos os dias”.

Sobre um exercício submarino na semana passada no qual três submarinos emergiram ao mesmo tempo no gelo polar, Putin comentou: “A expedição ao Ártico não tem análogos na época soviética e na história moderna da Rússia”.

Entre as novas armas está o torpedo Poseidon 2M39. Os planos para a superarma foram inicialmente revelados em uma apresentação aparentemente proposital de um documento discutindo suas capacidades por um general russo em 2015.

Posteriormente, o torpedo foi parcialmente descartado por analistas como uma arma “tigre de papel”, destinada a aterrorizar com seus poderes destrutivos apocalípticos que parecem escapar dos requisitos do tratado atual, mas não para serem implantados com sucesso.

No entanto, uma série de acontecimentos no Ártico – incluindo, de acordo com relatos da mídia russa, o teste de até três submarinos russos projetados para transportar a superarma com tecnologia stealth, que teria 20 metros de comprimento – agora levou analistas a considerar o projeto real e ativo, e não um tigre de papel.

A agência de notícias estatal russa, RIA Novosti, citou uma “fonte” na segunda-feira (5) dizendo que os testes para o submarino Belgorod, especialmente desenvolvido para ser armado com o torpedo Poseidon, seriam concluídos em setembro.

Manash Pratim Boruah, um especialista em submarinos do anuário naval “Jane’s Fighting Ships”, disse: “A realidade da arma é clara. Dá para ver bem o desenvolvimento em torno do torpedo, o que está acontecendo. Há uma boa probabilidade de que o Poseidon seja testado, e com ele o perigo de muita poluição mesmo sem uma ogiva, mas com certeza um reator nuclear em seu interior”.

Boruah disse que algumas das especificações do torpedo vazadas pelos russos eram muito otimistas e que duvidava que a arma pudesse atingir a velocidade de 100 nós (cerca de 185 km/h) com um reator nuclear de 100 MW. Ele acrescentou que, em tal velocidade, ele provavelmente seria detectado com bastante facilidade, pois criaria uma grande assinatura acústica.

“Mas, mesmo se você diminuir a especulação ao redor dessa arma, ela ainda é muito perigosa”, concluiu.

Boruah acrescentou que a construção de baías de armazenamento para o Poseidon, provavelmente em torno de Olenya Guba, na Península de Kola, deveria ser concluída no próximo ano. Ele também expressou preocupação sobre o míssil hipersônico Tsirkon que a Rússia diz já ter testado duas vezes, já que, em velocidades 6 a 7 Mach, ele “definitivamente causaria muitos danos sem uma ogiva particularmente grande em si”.

Katarzyna Zysk, professora de relações internacionais do Instituto Norueguês de Estudos de Defesa, disse que o Poseidon está “se tornando bem real”, dado o nível de desenvolvimento de infraestrutura e teste de submarinos para transportar o torpedo.

“É um projeto que será usado para assustar, como um cartão de negociação no futuro, talvez nas negociações de controle de armas”, opinou Zysk. “Mas, para isso, tem de ser verossímil. Isso parece ser real”.

Stensønes também mostrou preocupação com o fato de o teste de tais armas nucleares poder ter graves consequências ambientais. “Estamos preocupados ecologicamente. Não se trata apenas de uma coisa teórica: na verdade, assistimos a acidentes graves nos últimos anos”, afirmou, referindo-se aos testes do míssil Burevestnik que teriam causado um acidente nuclear fatal em 2019. “O potencial de uma contaminação nuclear está todo lá”.

(Texto traduzido. Clique aqui para ler o original em inglês).

Participe do nosso grupo e receba as principais notícias do Defesa em Foco na palma da sua mão.

blank

Ao entrar você está ciente e de acordo com os termos de uso e privacidade do WhatsApp.



Assine nossa Newsletter


Receba todo final de tarde as últimas notícias do Defesa em Foco em seu e-mail, é de graça!

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor insira seu comentário!
Digite seu nome aqui