Os painéis “Guerra e Paz” foram instalados no hall da Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em 1957, depois de serem oferecidos pelo Brasil. As obras foram pintadas pelo artista brasileiro Cândido Portinari e representam, segundo o próprio autor explicava em entrevistas, uma grande mensagem ética e humanista que se dirige ao principal problema que o mundo vive atualmente: a questão da violência e da injustiça.

Segundo a ONU, o mundo tem a maior alta de embates violentos desde o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, com conflitos que vão do Haiti à região do Sahel, na África, do Iêmen a Mianmar, e agora na Ucrânia. Ainda de acordo com a Organização, ao todo, 25% dos habitantes do planeta estão em áreas afetadas por guerras.

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Painéis “Guerra e Paz” de Cândido Portinari

A partir do cenário de guerras e conflitos, a competição entre as grandes potências e as constantes tensões e crises militares entre elas faz com que o tema Jogos de Guerra (JG) ganhe importância no cenário internacional. Algumas universidades e forças armadas dispõem de cursos específicos para a formação de profissionais nessa área de atuação. Resumidamente, os JG são uma metodologia relevante para o aprimoramento de um grupo de indivíduos responsáveis por tomar decisões importantes tanto no meio civil quanto no meio militar.

Os mais eficientes e eficazes em realizar Jogos de Guerra conseguem enfrentar melhor os problemas e os possíveis adversários, seja no ambiente militar, político ou privado. Essa conclusão é do Capitão de Mar e Guerra Alexandre Tito dos Santos Xavier, da Marinha do Brasil (MB), autor de “Desvendando os Jogos de Guerra”, publicado em fevereiro deste ano e único livro nacional sobre Jogos de Guerra profissionais militares.

Na publicação, o autor destaca que não se deve confundir os Jogos de Guerra com exercícios táticos militares simulando um cenário de conflitos entre oponentes, ou com jogos de simulação computacional. “Os JG têm a sua aplicabilidade também no meio civil, seja para elaboração de políticas públicas, combate a pandemias, competição no mundo empresarial, planejamentos por parte de agências governamentais, universidades, dentre outras aplicações”, afirma.

Único livro nacional sobre Jogos de Guerra profissionais militares

Segundo o Capitão de Mar e Guerra Tito, para além de uma simulação de guerra em ambiente virtual, os Jogos de Guerra são preparados para estimular o planejamento conjunto, a análise de uma conjuntura político-estratégica e aprimorar o processo de tomada de decisão em situações de crise. A aplicação é mais difundida no meio militar, entretanto empresas e acadêmicos, por exemplo, também podem se apropriar desse conhecimento.

Especialista em geopolítica, o Capitão de Mar e Guerra Leonardo Faria de Mattos – professor na Escola de Guerra Naval e autor do podcast “Conexão Geo”, também disponível no YouTube – afirma que os JG proporcionam o preparo das instituições e pessoas que podem, em algum momento, ter que tomar decisões importantes em um possível cenário de conflito. “As simulações são uma excelente oportunidade para equalizar conhecimento do ambiente geopolítico internacional e seus principais desdobramentos no campo militar, além de aprimorar a capacidade de trabalho em equipe de todos os envolvidos”, destacou.

Oficiais durante o Jogo de Guerra “MAHJID” na EGN

Jogos de Guerra no Brasil

Para a execução dos Jogos, existe no Brasil o Centro de Jogos de Guerra (CJG), pertencente à Marinha do Brasil e que fica localizado na Escola de Guerra Naval (EGN), no bairro da Urca, na cidade do Rio de Janeiro (RJ). É neste local que começou, hoje (17), o Jogo de Guerra “MAHJID”. Trata-se de uma das atividades acadêmicas do Curso de Estado-Maior para Oficiais Superiores, da MB, para atuação logística, com ações envolvendo Direito Internacional Humanitário, Direito do Mar, assuntos civis, guerra cibernética, além de aplicar o processo decisório diante de um determinado problema militar.

Dentre as vantagens dos JG para o País estão a economia de recursos financeiros, explorar decisões ousadas sem a perda de vidas humanas, contribuir para fazer frente a cenários futuros e entender os erros de cenários passados, contribuir para o aprimoramento dos analistas de inteligência e do trabalho em equipe. O Capitão de Mar e Guerra Tito explica que o JG é uma ciência que permite ao seu usuário simular um cenário fictício, hipotético ou não, para analisar possíveis desdobramentos, deficiências e conflitos de interesses. “Ao seu término, o usuário poderá antecipar outros cenários que deverão ser investigados ou apresentar tendências, auxiliando no processo decisório do mundo real. O JG requer experiência e uma certa dose de imaginação racional relacionada ao problema que se deseja investigar ou analisar, bem como a um planejamento que se queira testar”, explica.

No contexto geopolítico atual, marcado principalmente por conflitos na Ucrânia e outros cenários de competição entre potências como China, Estados Unidos e Rússia, o Diretor da EGN, Contra-Almirante João Alberto de Araujo Lampert, defende a importância de prever cenários e preparar estratégias. “Os Jogos de Guerra são excelentes ferramentas para simular situações atuais ou futuras, testando, avaliando e aprimorando planejamentos, procedimentos ou estruturas, em ambientes controlados e multidisciplinares, de acordo com o contexto desejado – mesmo quando não há o emprego direto de forças militares. As opções com uso de um sistema de simulação, adequado para forças navais e militares, assim como jogos analíticos tipo seminário, que abrangem cenários em níveis político-estratégico ou operacionais, conferem grande flexibilidade e ampla possibilidade de atuação do Centro de Jogos da EGN, que apoia tanto a Marinha do Brasil quanto diversas instituições”, reforça.

Ainda sobre o assunto, o Capitão de Mar e Guerra Leonardo Mattos reforça que esse cenário traz algumas lições para a realidade brasileira. “O conflito na Ucrânia nos mostra que precisamos estar sempre prontos para defender os interesses do Brasil contra qualquer ator do sistema internacional, seja ele estatal ou não. Os Jogos de Guerra são uma excelente oportunidade para testarmos determinadas situações onde o poder militar precise ser empregado, e ao longo dos anos, nossos JG têm contribuído para formulação das estratégias necessárias para emprego da Marinha e demais Forças Armadas”, disse.

Em sua conclusão no livro, o Capitão de Mar e Guerra Tito destaca que, “no cenário atual de conflitos que estamos vivendo, é fundamental o apoio da área de educação, por meio do desenvolvimento de cursos universitários sobre Jogos de Guerra, visando criar, aumentar e aperfeiçoar os estudiosos brasileiros do tema, civis e militares, fomentando, assim, o desenvolvimento de uma mentalidade do uso dos JG no Brasil, bem como formando especialistas no assunto”.

Centro de Jogos de Guerra

Inaugurado em 2004, o CJG tem 16 salas de jogo independentes, configuradas para 12 jogadores cada; um auditório com 180 lugares com divisória acústica, que possibilita a condução de “briefing” para dois grupos oponentes, simultaneamente; uma sala de “briefing” com 20 lugares, que permite a visualização da situação tática sob a ótica dos partidos oponentes; e uma sala para o Grupo de Controle.

Atualmente, a EGN executa JG didáticos anuais, como “AZUVER”, “CARIMBÓ”, “MANOBRA DE CRISE E FAMIGAS”, para seu oficialato e também para alguns oficiais do Exército Brasileiro e da Força Aérea Brasileira, e de Marinhas estrangeiras amigas. Além desses, promove os JG internacionais chamados “MULTILATERAL”, “TRI-LATERAL” e “INTERAMERICANO”. Também realiza o JG analítico interagência denominado “Programa Integrado de Proteção de Fronteiras”, entre outros.

Faça um “passeio” virtual pelo Centro de Jogos de Guerra.

Por Primeiro-Tenente (RM2-T) Luciana Santos de Almeida

Marcelo Barros, com informações e imagens da Marinha do Brasil
Jornalista (MTB 38082/RJ). Graduado em Sistemas de Informação pela Estácio de Sá (2009). Pós-graduado em Assessoria de Comunicação (UNIALPHAVILLE), MBA em Jornalismo Digital (UNIALPHAVILLE), Administração de Banco de Dados (UNESA), pós-graduado em Gestão da Tecnologia da Informação e Comunicação (UCAM) e MBA em Gestão de Projetos e Processos (UCAM). Atualmente é o vice-presidente do Instituto de Defesa Cibernética (www.idciber.org), editor-chefe do Defesa em Foco (www.defesaemfoco.com.br), revista eletrônica especializado em Defesa e Segurança, co-fundador do portal DCiber.org (www.dciber.org), especializado em Defesa Cibernética. Participo também como pesquisador voluntário no Laboratório de Simulações e Cenários (LSC) da Escola de Guerra Naval (EGN) nos subgrupos de Cibersegurança, Internet das Coisas e Inteligência Artificial. Especializações em Inteligência e Contrainteligência na ABEIC, Ciclo de Estudos Estratégicos de Defesa na ESG, Curso Avançado em Jogos de Guerra, Curso de Extensão em Defesa Nacional na ESD, entre outros. Atuo também como responsável da parte da tecnologia da informação do Projeto Radar (www.projetoradar.com.br), do Grupo Economia do Mar (www.grupoeconomiadomar.com.br) e Observatório de Políticas do Mar (www.observatoriopoliticasmar.com.br) ; e sócio da Editora Alpheratz (www.alpheratz.com.br).

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