Varginha (MG)/Divulgação/Polícia Militar de Minas Gerais

Assaltos cinematográficos ao estilo do ocorrido na cidade de Criciúma (SC) na madrugada do dia 1º de dezembro têm um apelido: Novo Cangaço. Em geral são sofisticadamente planejados, contam com a participação de número grande de pessoas atuando de forma coordenada em várias frentes, envolvem armamento de guerra e são pensados para desestabilizar as pequenas e médias cidades onde ocorrem, deixando pouca ou nenhuma chance para as forças policiais locais. Mas se até o cangaço se modernizou, por que a resposta a essa modalidade de crime continua em moldes retrógrados?

Considerando um roubo que ocorreu no centro da cidade, envolveu diversos reféns, agentes públicos e privados, e armamento suficiente para derrubar aeronaves, a ausência de mortes no ataque em Criciúma é desfecho a ser comemorado. Mas, no geral, não é assim. Basta ver o alto índice de mortalidade dos policiais rodoviários em serviço, proporcionalmente o maior entre todas as especialidades da Corporação, segundo dados coletados pelo major PM Hugo Araújo Santos, em tese de doutorado apresentada em 2019 no Centro de Altos Estudos de Segurança da Polícia Militar de São Paulo. As mortes ocorrem principalmente ao se depararem, vulneráveis, em geral em inferioridade numérica em estradas afastadas, com quadrilhas fortemente armadas em fuga.

A solução, entretanto, não passa por elevar o poderio bélico das forças de segurança pública, mas sim, com o auxílio de tecnologia eficaz, diminuir ou mesmo impossibilitar o acesso ao proveito do crime: o dinheiro. Uma solução simples e há anos implementada pelas empresas gerenciadoras de caixas eletrônicos e carros-fortes é o sistema de entintamento ou danificação das notas, que inutiliza as cédulas com produtos químicos permanentes quando o cofre é aberto à força.

Campanhas educativas promovidas pelo Banco Central orientam população e comerciantes a não aceitarem notas tingidas ou deformadas e a comunicarem o acontecimento às autoridades, que podem, a partir daí, rastrear a origem do dinheiro até as organizações criminosas. A implementação desta tecnologia, aliada a outras como geradores de neblina e cofres com blindagem especial, foram responsáveis pela queda drástica nos crimes de explosão de caixas eletrônicos das empresas que as adotaram, chegando a acabar com a ocorrência deste tipo de crime em países da Europa.

Especialistas em segurança calculam que roubos desta magnitude custam para as quadrilhas cerca de 1 milhão de reais em insumos e planejamento. Como em todo investimento, as aplicações diminuem à medida que o retorno se torna mais incerto.

Em complemento à tecnologia, é preciso dar prioridade às ações de inteligência. Assaltos como o dos aeroportos de Viracopos e Cumbica em 2019 apenas foram possíveis devido ao vazamento de informações estratégicas dos sistemas de segurança. Operações criminosas desta magnitude, por outro lado, são planejadas ao longo de meses e deixam rastros que podem ser identificados a partir da interceptação de comunicações de organizações criminosas; do compartilhamento de informações suspeitas e a maior integração entre setores da polícia; da atuação de agentes infiltrados e, principalmente, do rastreamento de armamento ilegal.

Fuzis e metralhadoras utilizados em ataques deste porte são de uso exclusivo do Exército brasileiro, e devem ser rastreados e apreendidos seguindo-se as diretrizes previstas no Estatuto do Desarmamento. Além disso, relatórios internos do segmento de transporte de valores apontam que grande parte dos explosivos utilizados em crimes é contrabandeada da atividade de exploração mineral. A apreensão de explosivos clandestinos constituiria, portanto, fator de prevenção de crimes com alto potencial lesivo.

Pensar em segurança pública é atividade majoritariamente preventiva e apenas residualmente reativa. Enxergar o aumento do poder de fogo das polícias como única ou principal solução para crimes complexos é um erro de estratégia que não podemos mais nos dar ao luxo de cometer, sob o risco de assumir ainda mais causalidades. O cangaço pertence ao século XIX, mas a tecnologia para prevenir crimes não precisa ser a daquela época.

*Luiza Veronese Lacava é advogada, consultora de Relações Governamentais no Instituto de Estudos Estratégicos de Tecnologia e Ciclo do Numerário (ITCN) e mestranda em Direito e Desenvolvimento pela FGV-SP

Fonte: Estadão

Marcelo Barros
Jornalista (MTB 38082/RJ). Graduado em Sistemas de Informação pela Universidade Estácio de Sá (2009). Pós-graduado em Administração de Banco de Dados (UNESA), pós-graduado em Gestão da Tecnologia da Informação e Comunicação (UCAM) e MBA em Gestão de Projetos e Processos (UCAM). Atualmente é o vice-presidente do Instituto de Defesa Cibernética (www.idciber.org), editor-chefe do Defesa em Foco (www.defesaemfoco.com.br), revista eletrônica especializado em Defesa e Segurança, co-fundador do portal DCiber.org (www.dciber.org), especializado em Defesa Cibernética. Participo também como pesquisador voluntário no Laboratório de Simulações e Cenários (LSC) da Escola de Guerra Naval (EGN) nos subgrupos de Cibersegurança, Internet das Coisas e Inteligência Artificial. Especializações em Inteligência e Contrainteligência na ABEIC, Ciclo de Estudos Estratégicos de Defesa na ESG, Curso Avançado em Jogos de Guerra, Curso de Extensão em Defesa Nacional na ESD, entre outros. Atuo também como responsável da parte da tecnologia da informação do Projeto Radar (www.projetoradar.com.br), do Grupo Economia do Mar (www.grupoeconomiadomar.com.br) e Observatório de Políticas do Mar (www.observatoriopoliticasmar.com.br) ; e sócio da Editora Alpheratz (www.alpheratz.com.br).

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