Como o 1º almirante da marinha brasileira deu o maior golpe da história da bolsa de Londres

Thomas Cochrane foi um navegador brilhante que ajudou o Brasil a conquistar a independência de Portugal. No entanto, oito anos antes disso, se envolveu na maior fraude da história da Bolsa de Londres. Aqui contamos a sua história.

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James Ramsay - Art UK

Por Marcelo Campos

Era manhã de uma segunda-feira, 21 de fevereiro de 1814. Um homem uniformizado, chamado Coronel du Bourg, trazia notícias frescas sobre os últimos desenvolvimentos do front da guerra contra Napoleão.

Coronel du Bourg aportava em Dover, Inglaterra, carregando uma mensagem de Lord Cathcart, embaixador inglês na Rússia que batalhava no Leste Europeu contra as insurreições napoleônicas.

Sua mensagem era de grande importância para a nação: Napoleão I havia sido morto em batalha contra os Cossacos, um grupo étnico que habita a Ucrânia e o sul da Rússia. Solicitando que a notícia fosse transmitida ao Almirantado, o Coronel seguiu em direção a Londres parando em cada estalagem no caminho para espalhar as boas novas.

Os efeitos na Bolsa de Londres foram quase imediatos. Em uma economia estrangulada pelo Bloqueio Continental, as Guerras Napoleônicas vinham prejudicando as receitas de diversas empresas inglesas e os investidores vinham sentindo na pele a dor de uma guerra.

Com a novidade, a grande maioria dos papéis dispararam durante o início do pregão, em especial um título público intitulado de Omnium, que saiu de £26,50 para £32 em poucas horas.

Mas, como você deve saber, Napoleão não havia sido derrotado em batalha (ainda). Tudo não passava de um boato perfeitamente orquestrado por oito investidores onde, dentre eles, Thomas Cochrane era o mais famoso.

Os boatos demoraram quase um mês para serem completamente desmentidos em um mundo sem internet. Investidores na Bolsa de Londres passaram por um fevereiro atípico, com alta volatilidade e acaloradas discussões. No entanto, após confirmações oficiais e frequentes aparições do Imperador Francês, os ganhos foram rapidamente zerados e uma investigação tomou frente no Balcão.

O Comitê da Bolsa de Valores começou a apurar quais investidores teriam se beneficiado diretamente do boato e logo descobriu que houve uma venda de mais de £1,1 milhão em dois papéis do governo, sendo a maior parte comprada na semana anterior.

Oito investidores foram condenados por conspiração e fraude, incluindo Thomas Cochrane. A pena incluía multas, prisão e até mesmo uma passagem em pelourinho público.

A vida de Thomas Cochrane

Thomas Cochrane, ou Lorde Cochrane, era um exímio navegador entre os séculos XVIII e XIX. Tendo ganhado renome durante as Guerras Revolucionárias na França, Cochrane era filho da nobreza e especialista em ataques à cidades costeiras.

Após o Tratado de Amiens, que deu um fim temporário às turbulências na França, Cochrane entrou na University of Edinburgh, onde sua crescente curiosidade por economia e política o lançaram à vida pública.

Cochrane foi eleito ao parlamento inglês pelo Radical Party, um partido britânico que vinha se tornando abrigo aos simpatizantes de esquerda do Whig Party. E, inegavelmente, sua carreira política seria o principal trunfo na defesa contra as acusações de fraude.

O Lobo do Mar havia recebido uma das mais graves penas entre os oito investidores, incluindo pelourinho público, mas sua posição como um político popular entre os londrinos impediu que Cochrane sofresse com a penalidade. Apesar de ter sido destituído de seu posto naval e expulso da Ordem do Banho, o Lorde inglês evitou judicialmente o pelourinho e foi reeleito para a Câmara dos Comuns em seguida.

Após o fim do seu mandato em 1818, Thomas Cochrane seguiu para Valparaíso, no Chile, onde ressuscitaria sua carreira de exímio navegador, auxiliando o país latino-americano nas guerras de independência.

Durante os quatro anos seguintes, Cochrane se tornou um expoente nas batalhas navais sul-americanas. Sua fama não demorou muito para chegar no Brasil e, à medida que o Chile e o Peru garantiam sua independência, o Lobo do Mar começou a caçar um próximo destino.

Guerra da Independência

Apesar de não ser tão gloriosa quanto a independência americana quase cinquenta anos antes, a declaração de independência do Brasil acarretou em conflitos entre a colônia e a metrópole.

Enquanto os Patriotas, liderados por Dom Pedro I, controlavam politicamente o centro-sul do Brasil, os portugueses permaneciam controlando fortes na Bahia, Maranhão e no Pará.

Precisando de um especialista em cercos navais, Dom Pedro I contratou Lorde Cochrane para a missão como 1º Almirante da Marinha do Brasil. A maestria do Lobo do Mar afastou os portugueses do território nacional.

Com as importantes vitórias no Nordeste e no Norte do Brasil, D. Pedro I se sentiu em débito com Cochrane e o transformou no Marquês do Maranhão, em 1823. Tendo cumprido seu cargo na Marinha até 1825, o Lorde inglês saiu do Brasil para a Grécia, onde também auxiliou nas Guerras de Independência contra o Império Otomano.

A fraude de 1814

Após lutar nas Guerras Revolucionárias da França, se eleger político, mentir sobre a morte de Napoleão, praticar fraude financeira na Bolsa de Londres, liberar o Chile, ajudar Dom Pedro I, se tornar o Marquês do Maranhão, batalhar na Guerra de Independência da Grécia e, mais importante, assistir a morte de Napoleão em 1821, Cochrane retorna para a Inglaterra.

Após batalhar por anos por um perdão da Coroa, Cochrane conseguiu restaurar em 1831 o seu status como Almirante e sua participação na Ordem do Banho.

Se Lorde Cochrane era de fato inocente ou não, pouco importa. Algumas décadas depois, sua história de vida inspirou a obra-prima de Alexandre Dumas, o Conde de Monte Cristo.

Thomas Cochrane faleceria em Londres em 1860, aos 85 anos, após complicações decorrentes de uma cirurgia para extração de cálculos renais. Sua sepultura na Abadia de Westminster tem dimensões somente igualadas por outras duas, também no eixo central da nave: a sepultura dos Soldados Desconhecidos e a do doutor David Livingstone.

Fonte: Blocktrends

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