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A Rússia convocou para uma reunião a embaixadora do Reino Unido em Moscou e alertou Londres de que, se embarcações de guerra britânicas voltarem a navegar na costa da Crimeia, no Mar Negro, em águas sobre as quais o Kremlin reivindica soberania, serão bombardeadas.

— Podemos apelar ao bom senso, exigir respeito ao direito internacional e, se isso não funcionar, podemos bombardear — disse o vice-ministro das Relações Exteriores, Sergei Ryabkov, a agências de notícias russas.

Segundo o Ministério de Defesa russo, na quarta-feira o contratorpedeiro britânico HMS Defender adentrou águas da Península da Crimeia por três quilômetros, navegando em uma área anexada pela Rússia em 2014 após um referendo com a população local não reconhecido por potências ocidentais. O governo russo disse ter feito disparos de alerta contra o navio.

O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, disse que a anexação da Crimeia “foi ilegal” e que as águas são ucranianas, de modo que a travessia naval foi “totalmente correta”.

— Não reconhecemos a anexação da Crimeia, foi ilegal. São águas ucranianas, e foi totalmente correto utilizá-las para ir do ponto A ao ponto B — disse Boris, ao ser perguntado pela televisão britânica.

Na quarta-feira, as Forças Armadas britânicas afirmaram que o navio estava “fazendo uma passagem inocente por águas territoriais ucranianas, de acordo com o direito internacional”, e negaram que disparos de alerta tivessem sido feitos pela Rússia, alegando que forças russas realizavam “exercícios de tiro” na hora da travessia.

Em Moscou, nesta quinta-feira, o governo russo convocou a embaixadora Deborah Bronnert para “protestar fortemente” contra o que considerou uma ação “perigosa” do Reino Unido no Mar Negro.

Em um comunicado, o Ministério das Relações Exteriores da Rússia disse que “no caso de uma repetição de tais provocações, toda a responsabilidade por suas possíveis consequências recairá inteiramente sobre o lado britânico”. A porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Maria Zakharova, também acusou Londres de “mentiras descaradas”.

O Mar Negro, que Moscou considera estratégico para projetar poder no Mediterrâneo, tem sido durante séculos um ponto de conflito entre a Rússia e países rivais como Turquia, França, Reino Unido e Estados Unidos. Os países ocidentais consideram a anexação da Crimeia —  primeiro militarmente e seguida por um referendo organizado pelo Kremlin — uma violação das leis internacionais. O ministro da Defesa britânico, Ben Wallace, acusou os pilotos russos de realizarem manobras inseguras de aeronaves cerca de 150m acima do navio de guerra.

— A Marinha Real sempre respeitará o direito e não aceitará interferências ilegais em passagens inocentes — disse Wallace.

De acordo com o direito internacional do mar, a passagem inocente permite que um navio passe pelas águas territoriais de outro Estado, desde que isso não afete sua segurança. O secretário de Relações Exteriores, Dominic Raab, chamou a versão russa dos eventos de “previsivelmente imprecisa”.

Repórteres para a BBC e do Daily Mail que estavam no navio no momento do incidente descreveram uma cena tensa durante a qual a tripulação vestiu equipamentos de proteção e navios russos chegaram a uma distância entre 100 e 200 metros. Em imagens da BBC, pode-se ouvir um alerta da Guarda Costeira russa  de que o navio britânico seria alvo de disparos se não mudasse de curso.

— Se vocês não mudarem o curso, eu atiro — disse uma voz russa com forte sotaque em inglês ao navio britânico.

A BBC disse que tiros foram disparados e que cerca de 20 aeronaves russas estavam “zunindo” sobre o navio britânico.

O contratorpedeiro britânico visitou o porto ucraniano de Odessa nesta semana, onde foi assinado um acordo com o Reino Unido para ajudar a atualizar a Marinha da Ucrânia.

Os laços entre Londres e Moscou estão congelados desde o envenenamento do ex-agente duplo Sergei Skripal em 2018 com um agente nervoso desenvolvido pela União Soviética conhecido como Novichok. Skripal traiu centenas de agentes russos para o serviço de espionagem estrangeira do Reino Unido, o MI6.

Fonte: O Globo

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